Religião e Política

Ouvi muitas vezes uma frase que nunca fez muito sentido para mim, “política e religião não se discute”. Parecia um desejo de evitar conflitos e respeitar a posição de cada um com a fé ou partido político escolhido. Também se dizia que os religiosos não deveriam se envolver com os processos políticos pois um é absolutamente mundano e o outro espiritual. Meu desagrado com estas afirmações é que, elas não consideram que a espiritualidade é vivida neste mundo. Ela é expressa nas ruas, escolas, locais de trabalho e também nos templos religiosos.

A verdadeira espiritualidade precisa lutar pelo direito de quem sofre, por mais igualdade social, por melhor distribuição de renda, pelo direito de existir de forma digna.

Como não discutir política, se ela pode afetar diversas áreas da nossa vida? O candidato republicano Donald Trump anuncia em sua plataforma política que imigrantes, são portadores de doenças, criminosos e destruídores da ordem social. Como podemos nós, o povo da religião, cujo livro de fé e prática diz “Em vez disso, corra a retidão como um rio, a justiça como um ribeiro perene!”, ficar calados diante de tanta barbárie?

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Nós, cujo Senhor foi imigrante, fugindo com sua família da perseguição romana. Nós que temos como referência a história de Israel, que foi peregrino, imigrante em terras estranhas. Nós que fomos ensinados a defender o direito do órfão e da viúva “Maldito quem negar justiça ao estrangeiro, ao órfão ou à viúva” – Deuteronômio 27.19.

Como não discutir em um momento crucial a política que nos afeta, não como cristãos apenas, mas como cidadãos. Como não aprender com a história, que nos mostra que se a Igreja na Alemanha tivesse se posicionado contra a ascensão de Hitler talvez hoje a memória do holocausto seria menos horrível. Ou que se Martin Luther King pensasse que política não se discute, os negros norte americanos ainda viveriam segregados.

Aliás, creio que uma de suas frases seja tão importante hoje como no dia em que foi pronunciada, “para que o mal se propague tudo que é necessário é que o justo se cale”. Será que devemos realmente continuar sem discutir política e religião?